Fabbrick: bloco de lixo é bloco de luxo

Quantas camisetas esquecidas você tem no fundo do armário? E se essas roupas pudessem voltar ao mundo como material de construção? Não como fibra reprocessada, mas como tijolos que revestem paredes, decoram e protegem? 

Em Paris, uma arquiteta transformou pilhas de tecidos em módulos táteis e coloridos: o resultado é ao mesmo tempo um produto de design e uma resposta prática à montanha de resíduos têxteis que cresce a cada ano. 

O problema:

Fonte: Greenpeace

O descarte de roupas tornou-se um dos problemas ambientais e sociais mais graves da economia global da moda. Inclusive, já falamos sobre isso quando apresentamos o Back to Eco. A lógica do fast fashion, marcada por ciclos acelerados de produção e consumo, faz com que peças sejam compradas, usadas por pouquíssimo tempo e descartadas rapidamente. Segundo a Ellen MacArthur Foundation, o tempo de uso das roupas caiu cerca de 36% nas últimas duas décadas, enquanto a produção global de vestuário dobrou no mesmo período. Apenas 1% dos materiais têxteis hoje é reciclado de fato em novas roupas. O restante segue para aterros, incineração ou é exportado como “roupa de segunda mão”,  um fluxo que esconde desigualdades profundas.

Grande parte desses resíduos têxteis acaba em países de baixa renda, especialmente na África Oriental e na Ásia. Locais como Gana e Quênia recebem milhares de toneladas de roupas usadas todos os dias, muito mais do que conseguem reutilizar ou vender. Relatórios do Greenpeace e investigações do Changing Markets Foundation mostram que ao menos 40% das roupas exportadas para esses países chegam em condições impossíveis de uso, como peças rasgadas, manchadas, sem valor comercial. Esses resíduos, rejeitados pelos mercados locais, são queimados a céu aberto ou jogados em rios, formando montanhas de têxteis que liberam microplásticos, corantes tóxicos e gases de efeito estufa.

Fonte: Greenpeace

Além do dano ambiental, há consequências sociais graves. Comerciantes locais enfrentam perdas financeiras por receber fardos de roupas inutilizáveis, enquanto comunidades inteiras convivem com lixões têxteis que degradam a saúde pública e o turismo. Organizações como o Or Foundation, que atua em Gana, denunciam como a economia global da moda transfere seus resíduos para países mais pobres sob a narrativa de “doação”, quando, na prática, trata-se de dumping têxtil. O problema revela uma engrenagem desigual: enquanto consumidores em países ricos renovam seus guarda-roupas a cada estação, comunidades vulneráveis ficam com o peso das sobras de um sistema que produz rápido demais e recicla de menos.

A iniciativa:

Enquanto estudava arquitetura em Paris, Clarisse Merlet viu de perto o paradoxo entre dois mundos que jamais deveriam se cruzar: o da construção civil, ávido por materiais, e o da moda, que gerava montanhas de roupas descartadas todos os dias. Isso a levou ao ateliê, onde em 2016 começou a triturar, prensar e testar retalhos como quem escuta um material falar.

Os primeiros protótipos não eram bonitos, mas tinham potencial. Clarisse percebeu que, ao misturar fibras têxteis trituradas com um tipo de cola e compactá-las em moldes, surgia algo sólido, resistente, surpreendentemente leve e com propriedades de isolamento térmico e acústico. Era como se cada retalho carregasse memória e, ao ser prensado, renascesse como parte de um tijolo. Depois de dezenas de tentativas, ajustes e testes em laboratório, o que antes era uma curiosidade virou um produto viável. Em 2018, nasce oficialmente a FabBRICK, carregando no nome e no propósito essa fusão entre o “fabric” da moda e o “brick” da construção.

A FabBRICK rapidamente ganhou atenção por unir baixa energia, simplicidade técnica e impacto ambiental direto. O processo não exige derretimento, separação química ou altas temperaturas, apenas corte, moagem, mistura e prensagem mecânica, com cura por secagem natural. Cerca de 80% do tijolo é composto por fibras têxteis; o restante é o ligante ecológico que garante integridade estrutural. É uma tecnologia de baixo impacto que transforma passivos ambientais em módulos funcionais usados em revestimentos de interiores, mobiliário, cenografia e design comercial. A empresa obteve patente na França e na Europa, ampliando a confiança de arquitetos, designers e marcas que passaram a abastecer o ateliê com seus próprios resíduos.

O impacto acumulado mostra a força dessa abordagem: mais de 12 toneladas de têxteis reciclados e dezenas de milhares de tijolos produzidos, com algumas fontes apontando mais de 40 mil unidades desde o início da operação. Cada metro quadrado de painel reaproveita em média 10 kg de resíduos, ajudando a reduzir a carga de incineração e a dependência de materiais de origem mineral. A FabBRICK já foi destacada por iniciativas como o Solar Impulse Foundation e Low-Tech Lab, que enxergam no método não apenas uma solução ambiental, mas um modelo possível de produção local e circular.

Vocês podem conhecer mais sobre essa iniciativa acessando:
Site Oficial | Instagram da Fabbrick

Esse projeto atende os seguinte ODS:

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Atualizado em 08 de dezembro de 2025

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